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Era Uma Vez

O Menino Que Não Sabia Brincar

Menino Sorrindo com Semblante Sereno

Quando esse menino nasceu, a família fez muita festa.

Todos ficaram felizes e celebraram o seu nascimento como o mais importante momento de suas vidas.

Para o pai acabara de chegar o seu herdeiro, aquele que iria levar adiante o nome da família.

A mãe, por sua vez, nunca tinha visto nada tão lindo ao qual devotar o seu amor.

Quando a criança foi batizada deram a ela o nome do pai, acrescido do nome do avô materno.

Nesse nome estavam as esperanças de que a criança pudesse se tornar um médico de renome ou um advogado de sucesso, como aqueles de quem herdara os nomes.

Por isso mesmo, ainda pequeno, o menino ganhava brinquedos que pareciam lhe indicar o caminho dos hospitais ou dos tribunais...

Os livros que liam para ele sempre contavam histórias de doutores ou de juízes e advogados.

Quando ele entrou na escola os professores da educação infantil já sabiam do futuro que aguardava aquela criança e se comprometeram a exigir bastante dele.

Esse menino tinha sempre que superar todas as expectativas e ser o melhor...

Na escola, nos esportes, nas aulas de inglês, no curso de informática...

É, pois com seus 8 anos de idade, quando ainda estava nas séries iniciais da escola ele já fazia inglês, informática, equitação, piano...

Acumulou medalhas. Teve as melhores notas da escola. Foi sempre o primeiro da turma de inglês.

Tocava piano como os melhores músicos do mundo.

Tornou-se um dos melhores resultados

Da história dos exames de admissão nas universidades.

Para satisfação do pai e tristeza do avô, decidiu tornar-se advogado.

Quando concluiu seu curso, ainda muito jovem, ingressou nos melhores escritórios de advocacia e foi aprovado em todos os concursos como o melhor jovem advogado do país.

Todos se orgulhavam muito dele. Sua mãe era só elogios.

Seu pai preparava o escritório do mais promissor defensor da lei que todos conheciam.

Até os avós, que queriam que ele fosse médico, reconheciam seu talento nato para as leis.

O que ninguém entendia era que o jovem nunca sorria.

Ele sempre tinha um semblante entristecido.

Seus olhos, apesar de todos os sucessos, demonstravam toda a infelicidade do mundo.

Com tantos resultados positivos, elogios, vitórias e sucessos, ninguém conseguia entender ao certo o motivo de seu olhar sério, triste, desolado...

O que ninguém sabia era que, as esperanças de sucesso nele depositadas geraram uma intensa e eterna cobrança...

Errar ou falhar não constavam de seu dicionário. Todo o tempo ele tinha que mostrar-se superior e, para isso, tivera que se preparar em período integral...

Aquele menino nunca pudera realmente brincar...

Ele nunca aprendera a se divertir. Seu pai nunca o levara para andar de bicicleta ou jogar bola.

Empinar pipa ou brincar de esconde-esconde eram mistérios para ele.

Histórias de fadas, castelos, dragões, foguetes ou heróis não fizeram parte de sua infância.

Aquele menino nunca subira numa árvore, pois isso contrariava as leis.

Ele também jamais fizera qualquer coisa perigosa ou proibida, como ir para a casa de um amigo sem autorização, já que isso atentava contra as regras...

O que ninguém sabia era que aquele menino de tantos sucessos e de tão triste sorriso chorava todas as noites pois se sentia só, infeliz diante de tantas cobranças, acuado pela necessidade de que seu sucesso fosse eterno...

Um dia, já advogado formado e de sucesso, ele conheceu uma bela jovem e por ela se apaixonou...

Mas nem ela conseguia lhe fazer sorrir e se sentir feliz...

Foi então que ela descobriu os motivos de sua tristeza e, no primeiro aniversário que passaram juntos, depois de terem se casado, deu ao jovem uma pipa, um pião, um carrinho e uma bola...

Sem nada entender, ele estranhou o presente. Ela então se sentou no chão e brincou por horas e horas com cada uma daquelas surpresas que trouxera para o jovem marido.

Ao final daquele período, extasiado por uma situação nova em sua vida, ele chorou, emocionado e sorriu com um brilho nunca antes visto por ninguém, nem mesmo por sua amada...

Afinal, já adulto, aprendera a brincar... Ainda a tempo de ser menino... Ainda a tempo de poder brincar com o filho que logo iria chegar... E para o qual ele tinha guardado toda a felicidade e os sorrisos que nunca dera a ninguém até aquele momento...

João Luís de Almeida Machado é Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte da Imagem: Corbis.

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