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Era Uma Vez

Um Presentão de Natal

Menino de cabelos volumosos lavando louça

Cristiano estava diferente aquele mês. Nem parecia mais o mesmo...

Ao acordar, arrumava a própria cama, escova os dentes sem reclamar, nunca se esquecia de trocar a água e dar ração ao cachorro e, por incrível que pareça, nem fazia cara feia para comer verduras na hora do jantar.

– Menino, vem cá, me diga o que está acontecendo... – Dona Maria, a mãe do garoto, estava muito desconfiada da repentina mudança no comportamento do filho.

– Não é nada não, mãe, estou normal como sempre.

Terminava dia, começava noite, e Cristiano permanecia empenhado em fazer tudo da melhor forma possível, mas nada daquilo convencia dona Maria que alguma coisa estava errada com o menino.

Bem, errada não sabemos, mas que parecia que algum parafuso tinha se soltado da cabeça do pequeno Cristiano, ah isso parecia...

– Mãe, veja só isso, me dediquei tanto que acho que não vou ficar em recuperação de matemática este ano!

– Que legal, filho, estou muito orgulhosa de você. Viu só como eu tinha razão? Se tivesse se dedicado desde o começo do ano, não precisaria ter ficado em apuros nos finais de cada bimestre, não acha?

– É mesmo, mãe, a senhora tem mesmo que se orgulhar de mim, pois sou um filho bonzinho, carinhoso, dedicado, ajudo a senhora a cuidar da casa...

“Ih... Isso não está me cheirando bem”, pensou dona Maria, mas resolveu tomar coragem e continuar “dando corda” para o filho:

– É... – dona Maria gaguejou um pouco – Bem, na verdade você começou a fazer tudo isso há pouco tempo, né, seu Cristiano, o que é que o senhor está me aprontando dessa vez, hein?

Euuuu? Aprontando? – Cristiano fez uma cara de espantado e injustiçado – Nossa, mãe, a senhora está sendo muito cruel comigo, tudo o que eu faço nessa casa é só ajudar a senhora, puxa vida.

Ainda muito desconfiada, dona Maria respirou fundo e resolveu colocar “panos quentes” naquela conversa antes que fosse tarde demais.

Mas o menino não era fácil de despistar não. Cristiano não dava moleza.

Se antes dona Maria reclamava que o menino não queria saber de dividir as tarefas da casa, agora ele a deixava cansada de tanto querer mostrar o que estava fazendo o tempo todo.

“Olha, mãe, lavei a louça do almoço para a senhora”, “Mãe, vem cá ver como deixei meu quarto arrumado hoje”, “Mãe, a senhora não vai acreditar, já passei manteiga no seu pão”...

“Para mim já chega”, pensou dona Maria.

Disposta a descobrir o que estava acontecendo com o menino, falou firme olhando bem nos olhos dele:

– Cristiano, pare já com isso, garoto! O que é que você está querendo, hein? Pode falar, não aguento mais você ficar me cercando o dia inteiro só para me mostrar as suas boas obras de garoto bonzinho e comportado.

Precisamos ser francos, pois, na realidade, ninguém poderia negar que Cristiano era sim muito bonzinho.

Apesar de não medir esforços quando o assunto era se divertir, nunca ousava responder mal à mãe dele, pois sabia o valor que ela tinha.

– Mãe, relaxa, não estou querendo nada em troca não.

“Ufa”, pensou dona Maria, mas antes de completar a respiração aliviada ao ouvir a resposta do filho, o esperto Cristiano emendou:

–... A menos que a senhora veja que filho exemplar que eu sou e resolva me dar uma camisa oficial do meu time como presente de Natal... Mas “tipo assim”, só se a senhora quiser me presentear mesmo, né, pois, afinal, passo o dia inteiro ajudando em casa, fazendo um monte de coisas para ajudar a senhora, sou bonzinho, educado, amoroso, carinhoso, boa gente...

O menino era terrível quando queria amolecer o coração da mãe dele e não economiza na hora de se elogiar.

Ele sabia que se fosse pelo lado da exigência, poderia esquecer, pois no máximo que iria conseguir seriam umas boas horas de castigo, isso sim.

Dona Maria tentou ser dura com o menino, mas acabou falando “entre os dentes”:

– Cristiano... (respirou fundo mais uma vez). Ai, meu Deus, eu sabia que “nesse mato tinha coelho”...

Às vezes, ela pensava em voz alta, mas quando isso acontecia, o pobre do menino não fazia ideia do que ela estava querendo dizer.

Afinal, o que tem a ver coelho com mato e com camisa oficial do time?

Cristiano tinha grandes dificuldades para entender a forma de falar da mãe dele, mas gostava de conversar com ela mesmo assim:

– Calma, mãezinha, não precisa falar grego comigo não, relaxa, eu já disse... Ah, mãe, pare com isso, uma camisa oficial do time nem deve ser tão cara assim...

– Ora essa, menino, não é cara para uns, mas é cara para outros... Para nós, bom..., para nós ela é caríssima, uma verdadeira fortuna, coisa de gente rica para dizer bem a verdade.

– Mas, mãe, este mês a senhora não descola aquela grana extra que todo mundo tem? Compra para mim, por favor, vai...

Aqueles olhinhos de criança arteira que resolve ser o exemplo de educação de uma hora para outra faziam tremer o coração da dona Maria.

– Menino, a grana extra deste mês já tem destino certo, está bem? Temos que consertar esse telhado antes das próximas chuvas, pois, caso contrário, vamos ter que arrumar outro lugar para morar.

Bom, dessa vez foi o coração de Cristiano que tremeu.

Ele gostava muito de morar naquela rua e, apesar de a casa ser bastante simples, para ele era o melhor lugar do mundo.

A conversa terminou meio sem graça e sem grandes decisões, mas dona Maria estava mesmo interessada em comprar o bendito presente do filho.

Mas quando viu o preço de uma camisa oficial de um time de futebol, a pobre mulher quase caiu para trás.

“Com esse dinheiro dá quase para fazer a compra do mês”, ela pensou ao sair de fininho daquela elegante loja de roupas caras.

Tentou daqui, tentou dali, mas nada, por mais que se esforçasse não dava mesmo para gastar tanto dinheiro em uma simples camisa de time.

Resolveu comprar uma muito bonita, mas muito longe de ser a oficial.

Num determinado dia, depois de perceber que o menino continuava muito bem-comportado em casa, resolveu “abrir o jogo”:

– Filho, tenho uma coisa para falar com você. A mãe não conseguiu mesmo comprar a camisa oficial de seu time... Eu pensei em pedir para fazer hora extra no trabalho, mas eu não teria com quem deixar você por tanto tempo assim...

Aquilo fez o menino gelar. “Como assim fazer hora extra?”, ele pensou.

Ele sempre ouvia a mãe reclamando de uma dor de cabeça daqui, uma dor na coluna dali, uma perna inchada que parecia não ter solução...

É... Fazer hora extra só iria piorar a saúde da cansada dona Maria.

Cristiano, apesar de sempre ser muito arteiro, sabia reconhecer o ralo que a mãe dele dava para dar conta de tudo e não deixar faltar nada em casa.

– Mãezinha, não era mesmo para a senhora trabalhar mais, está tudo bem, eu entendo a senhora.

Ai que vontade de chorar, aquela cena era mais emocionante que filme no cinema.

Naquele momento, eles trocaram olhares e um abraço bem apertado.

Bom, isso já era mais do que suficiente para dispensar qualquer palavra.

No dia seguinte, Cristiano viu que, antes de sair para trabalhar, a mãe dele tinha deixado a camisa não oficial do time próxima à cama em que ele dormia.

Quando dona Maria chegou a casa à noite, teve uma das mais lindas demonstrações de carinho vindas do filho.

O menino tinha passado pano no chão, lavado a louça e o banheiro, recolhido a sujeira do cachorro e feito um ovo com arroz que, apesar de estar meio sem tempero, estavam deliciosíssimos.

Os olhos da dona Maria encheram de lágrimas, mas engoliu o choro e foi colocar um frango que tinha guardado na geladeira para aquele dia.

Sem Cristiano perceber, ela colocou um pouco mais de sal naqueles deliciosos arroz e ovos (despedaçados).

Quando o frango já estava cheirando gostoso, Bidu, o cachorro de estimação daquela pequena família, estava lá por perto abanando o rabinho todo contente.

Aquele jantar foi o início de um novo Cristiano, pois, a partir daquele dia, ele esforçava-se cada vez mais para ajudar a pobre dona Maria no que podia.

Aquela foi, de fato, uma belíssima noite de Natal.

Erika de Souza Bueno:
Coordenadora Educacional da empresa Planeta Educação; Professora e consultora de Língua Portuguesa pela Universidade Metodista de São Paulo; Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, educação e família; Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Fonte da Imagem: Corbis.

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