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Era Uma Vez

Professora Faladeira


Mulher de meia-idade pedindo silêncio com o dedo indicador nos lábios

Ai, meu Deus, e agora?

A semana nem começou direito e a professora Cidinha parecia que já estava com a “macaca”...

– Eu já disse mais de 1 milhão de vezes para vocês pararem de implicar um com o outro! Já disse que não gosto que fiquem nesse “zunzunzum” aqui dentro. Para mim, já chega, não quero mais que ninguém dê um pio, estamos entendidos?

A professora parecia descontrolada, passava horas falando sempre dos mesmos assuntos, e os alunos começaram a desconfiar que algo estivesse errado com ela.

– Eh... Professora Cidinha, a senhora está bem? – Sabrina, com “muitos dedos”, tentou uma aproximação segura com a professora.

– Mas é claro que estou, menina, que pergunta mais sem cabimento é essa agora?

– Bem, é que eu acho que a senhora está mais faladeira do que de costume...

Coitada da menina! Levou o maior susto do mundo quando mal terminou de falar e foi interrompida pela professora:

– O quê? Eu? Faladeira? Mas, ora essa, isso não é o que vocês vivem fazendo nas redações?

Naquele exato momento, os alunos começaram a pensar no que uma coisa tinha a ver com outra.

Como todos eles já tinham tido aula muitas vezes com a querida e simpática professora, sabiam que poderiam se abrir à vontade com ela.

Então, tomando coragem, Gustavo, um dos alunos mais bem-comportados da sala, quebrou o imenso silêncio ao falar meio “entre os dentes”:

– Mas o que é que tem a ver uma coisa com outra?

Uma das grandes vantagens de ser professor é ter boa capacidade de ouvir, principalmente quando os alunos começam a cochichar na hora da prova.

A professora Cidinha sabia bem disso e, na opinião de alguns de seus alunos, ela ouvia até mais do que precisava (será mesmo?).

– Eu ouvi isso, viu, seu Gustavo?

Bom, claro que ela ouviu, pois ele fez a pergunta que mais ela queria naquela hora. Sem perder tempo, a professora continuou:

– Queridos mocinhos e mocinhas – ih, quando ela falava assim era porque estava querendo aprontar alguma –, vamos ao que interessa...

Mesmo percebendo a carinha de medo de seus alunos, a professora continuou:

– Já deu para perceber como é chato a gente ficar repetindo, repetindo e repetindo, não deu?

A professora Cidinha sabia que teria que ir com calma, pois precisava que seus alunos estivessem muito atentos ao que ela iria falar.

Foi até fácil.

As crianças estavam mesmo dispostas a dar toda atenção à professora, pois não queriam mais que ela ficasse repetindo as coisas.

– É, professora, é a pior “coisa” ficar repetindo “coisas”... – Bianca resolveu colaborar.

– E é exatamente aí que está o problema, querida. Por que será que a gente insiste em repetir palavras na redação? Gente, isso não tem graça nenhuma.

– Ah, então é isso, a senhora quer dizer que a gente não pode repetir as palavras nas provas de redação, ah, entendi... – Gustavo, finalmente, entendeu que “uma coisa tinha a ver com outra” sim.

– É mais ou menos isso, Gustavo. Nós não precisamos repetir palavras em todos os outros momentos em que a gente for escrever. É para isso que servem os pronomes e as palavras de mesmo significado.

A professora esperou um pouquinho, pois percebeu que os alunos estavam se esforçando para entender o que ela estava falando naquela manhã ensolarada de verão.

– Ah, é mesmo, a gente aprende aqui dentro para a gente usar lá fora, não é isso que a senhora sempre diz, professora? – Artur, um dos alunos mais bagunceiros da sala, surpreendeu a todos com essa inteligente dedução.

– Ora essa, é isso mesmo, menino, parabéns!

A professora Cidinha tão orgulhosa daquela resposta, que parecia que não cabia dentro de si.

Ela, mais uma vez, percebeu que todos os seus esforços para tentar deixar a sala um pouco menos desorganizada estavam tendo ótimos resultados.

Ainda tentando controlar seu belo sorriso que combinava perfeitamente com o brilho nos seus olhos, a professora respirou fundo e continuou:

– Gente, nós não precisamos repetir as palavras na hora de escrever. Por exemplo, vocês sabiam que a língua portuguesa tem mais de 435 mil palavras?

“Nossa, tudo isso! Nunca imaginei uma coisa dessa! Como assim? Que legal!”

Os alunos não estavam acreditando no que tinham acabado de ouvir, mas foram ainda mais surpreendidos quando a professora disse que, por dia, as próprias pessoas inventam muitas outras.

– Ah, mais essa agora? As próprias pessoas inventam palavras? – Lilian não conseguia acreditar naquilo.

E não era só ela. A professora Cidinha sabia bem que seus alunos achavam que as palavras eram inventadas por “pessoas importantes de terno e gravata”.

– É isso mesmo, pessoal, são as próprias pessoas que inventam palavras e, às vezes, até novos significados para elas.

Caminhando lentamente entre seus alunos, a professora deixou bem claro que, de tanto usarem as palavras com um significado que não é bem o que o dicionário diz, as pessoas do Brasil inteiro acabam aumentando nossas palavras.

Antes que os alunos pensassem que as pessoas poderiam estar erradas ao fazerem isso, a dedicada professora Cidinha, sempre muito comprometida com a aprendizagem deles, disse:

– Isso tudo é a coisa mais normal do mundo, gente! Assim como nós nascemos de um jeito e vamos mudando conforme os anos passam, a nossa língua portuguesa também muda com os anos, pois também tem vida!

Quem entrasse na sala naquele momento iria perceber claramente a carinha de felicidade dos alunos, mas...

– Gente, mas vamos com calma, nós não podemos sair por aí, assim sem mais nem menos, inventando novas palavras. Isso tudo acontece devagar, e somente depois de muitos estudos e pesquisas é que “as pessoas importantes de terno e gravata” vão colocá-las no dicionário, entenderam?

Aproveitando-se de sua fama de faladeira, a incansável professora Cidinha já emendou:

– E por falar em dicionário, vamos trocar as palavras repetidas das nossas redações da semana passada, combinado?

A aula já estava a todo o vapor quando a professora explicou aos alunos que aquela atividade faz a gente se lembrar da palavra “sinônimo” que é muito parecida com a palavra “sinonímia”.

Engraçado como a gente aprende na escola.

Sem se dar conta direito, os espertos alunos da professora Cidinha acabaram de aprender mais uma nova palavrinha.

E você? Sabe o que fazer para não repetir muito as palavras nas suas redações?

Erika de Souza Bueno: Coordenadora Pedagógica do Planeta Educação. Professora e consultora de Língua Portuguesa pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, educação e família. Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Fonte da Imagem: Corbis.

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