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Era Uma Vez

Luís Fabiano em “Trocando as Letras”

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– Luís Fabiano, faz favor, largue esse videogame agora e vá estudar!

Nossa, dona Júlia, a mãe de Fabinho, estava cada vez mais sem paciência com o filho...

E não era por menos não, o menino (como falavam antigamente) não se “aprumava”.

Bastava a pobre dona Júlia olhar do lado e o menino estava lá, paradão com os olhos vidrados nos joguinhos do videogame.

– Calma aí, mãe, já vou, só preciso terminar essa fase!

– Ora essa, menino, já faz 2 horas que você está com essa desculpa esfarrapada! Largue logo esse jogo senão eu...

– “Tá” bom, mãe, calma, não precisa se estressar, já desliguei.

Dona Júlia, sempre muito desconfiada, olhou de um lado, do outro, aproximou-se devagarinho da TV e, enfim, se certificou de que o menino tinha falado a verdade.

– Pronto, viu só? Desliguei... – finalizou o menino com o maior medo do mundo de ser colocado de castigo.

– Ah, sei, mas não é só isso. O que foi mesmo que eu mandei você fazer?

Luís Fabiano não podia responder, pois, quando estava jogando, o mundo podia se acabar em barrancos, que o menino não movia um músculo para, pelo menos, tentar ajudar em alguma coisa.

Uma vez tinha chovido tanto, mas tanto, que a casa inteira estava gotejando.

Sem nunca desistir de ter a atenção do filho, dona Júlia gritava e esbravejava, mas nem mesmo uma gotinha chata e insistente que caía ali perto dele o fez sair do lugar.

Não teve jeito, a coitada teve que dar conta sozinha de encher a casa de baldes para diminuir os prejuízos daquele dia chuvoso de verão.

O absurdo era tão grande que, se não fosse a mãe do menino colocar uma bacia perto do videogame (que ainda contava com várias prestações a ser pagas), um curto-circuito poderia ter acabado com a boa vida de Luís Fabiano.

O tempo foi passando, mas nada de Fabinho tomar jeito.

Todo mundo sabia que quando estava jogando, estava jogando, ora bolas...

Nada importava, nada tinha tanto sentido assim para superar a emoção de vencer as fases que tinham naqueles viciantes joguinhos de videogame.

Mas aquilo era demais para a mãe do menino.

Não ajudar na arrumação da casa para jogar videogame? Tudo bem, passou.

Não querer comer na hora certa para vencer as fases dos joguinhos? Isso, infelizmente, também acabou passando.

Mas não fazer a lição de casa para ficar jogando videogame? Ah, aquilo já era demais.

– Olha aqui, menino, eu vou falar pela última vez: vá fazer sua lição de casa se não quiser que eu suma com seu videogame daqui de casa, estamos entendidos?

Não precisava dizer mais nada, Luís Fabiano arregalou bem os olhinhos vermelhos por ter ficado tanto tempo na frente do videogame e saiu em disparada em direção à mesa da cozinha, pois era lá o único lugar da humilde casa em que era possível se apoiar para escrever.

– Filho, do que é seu dever de hoje?

– Ah, mãe, a professora mandou a gente escrever todas as palavras erradas que escrevemos na prova de redação da semana passada.

Apesar de teimoso, Luís Fabiano gostava muito da mãe dele e nunca, mas nunca mesmo, ousou contar alguma mentirinha, por menor que fosse.

Dona Júlia dava o maior duro para manter tudo em ordem.

Todos os dias, acordava quase de madrugada para preparar o café do menino, levá-lo para a escola e, de lá, a pobre mulher saía correndo para não perder o ônibus para ir trabalhar do outro lado da cidade em que moravam.

Ainda estava no trabalho quando dava a hora de o menino sair da escola. Para não o deixar desacompanhado, a mulher contava com a ajuda de uma vizinha, que, além de acompanhá-lo até em casa, vez ou outra dava uma espiadinha para ver o que ele estava fazendo.

Não foram poucas as vezes que dona Cida contou que o menino não desgrudava do videogame, e isso preocupava muito a pobre dona Júlia.

Naquele dia, contudo, ela iria dar um jeito naquela situação.

– Quantas palavras você vai ter que escrever de novo, Fabinho?

Apesar de saber muito pouco dessa coisa de leitura, a mãe do menino era muito esperta e sabia que, dependendo do tanto de palavras que o menino teria que reescrever, era o tamanho da dificuldade que ele tinha para escrever as palavras corretamente.

– Umas 20, mãe...

– 20? Nossa! Você errou 20 palavras numa mesma redação?

O menino ficou um pouco triste, pois, por mais que se esforçasse enquanto estava dentro da escola, não conseguia entender por que, afinal de contas, uma palavra se escreve com “S” e tem som de “Z”, ou, muito menos, por que uma palavra era escrita com “J” e outra com “G”, sendo que o som era praticamente o mesmo, meu Deus do céu...

Várias vezes o menino perguntou para a professora se não existia um jeito de melhorar as coisas na escrita.

Para ele, bastava escrever as palavras do mesmo jeito que se falava, e pronto, tudo estaria resolvido.

“Já tenho tanta coisa para me preocupar” – o menino sempre pensava ao se lembrar das fases dos joguinhos que tinha para superar.

A professora Letícia, sempre muito pacienciosa, já tinha explicado várias vezes que as regras da escrita eram importantes, pois sem elas seria impossível uma pessoa entender exatamente o que a outra escreveu.

 “Quando eu crescer, vou dar um jeito nisso, vou falar para todo mundo que nada a ver essa história de falar de um jeito e escrever do outro” – em pensamento, o menino sempre resmungava depois das justificativas da professora.

Bom, depois que se recuperou do susto ao saber que o filho tinha errado 20 palavras na redação da escola, dona Júlia teve uma brilhante ideia:

– Menino, você gosta mesmo de joguinhos de videogame, não gosta?

Coitado do Luís Fabiano... O menino gelou. Ele ficou tão pálido com aquela pergunta que até parecia que iria desmaiar.

Só faltava agora a mãe dele o proibir de jogar videogame para passar horas estudando ortografia.

“Não, isso não pode estar acontecendo comigo” – os pensamentos do menino o perturbavam.

“Uma boa pergunta merece uma boa resposta” – era isso que dona Júlia sempre ensinava para o menino.

Então, mesmo ainda com muito medo da pergunta da mãe, o menino tomou coragem e respondeu:

– Sim, mãezinha, gosto muito de videogame, mas gosto muitíssimo mais da senhora.

Muito esperto esse Fabinho. Ele pensou que, agradando a dona Júlia, ela não o deixaria sem o videogame de que tanto gostava.

– Sei... Então, já que você gosta tanto de jogos, vou dar um jogo novo para você. Quero só ver se você vai conseguir passar de fase.

Nossa! Que 10! O medo de Fabinho transformou em empolgação! Afinal, o elogio tinha funcionado!

Ele não só conseguiu fazer com que a mãe não o proibisse de jogar, como também iria conseguir um jogo novo! Isso era além de suas expectativas!


– Sério, mãe? A senhora vai mesmo me dar um joguinho novo? A senhora é a melhor mãe do mundo!

O menino só faltava pular de alegria. Então, completou:

– Cadê o joguinho novo, mãe?

– Calma aí, Fabinho, você não se lembra de que não temos dinheiro para quase nada? Você vai ter que fazer o próprio joguinho. Tire as folhas que sobraram de seu caderno do ano passado e venha cá.

O menino não estava entendendo mais nada. Como assim fabricar o próprio jogo? Mas tudo bem, com mãe não se discute...

– Aqui estão as folhas, mãe. E agora? Onde está o joguinho?

– Menino apressado, nem parece que demorou 9 meses para nascer. Vai recortando essas folhas em quadradinhos e escrevendo todas as letras do alfabeto.

– Mas, mãe, eu não sei direito quais são todas as letras do alfabeto, eu juro!

Nesse momento, dona Júlia se levantou e foi até uma estante velha que tinha por ali.

Ao voltar à mesa da cozinha, já trazia em suas mãos um pequeno dicionário que tinha ganhado na biblioteca da escola em que o menino estudava desde pequenininho.

– Aqui, Fabinho, vai copiando as letras do alfabeto daqui, tenho certeza que todas elas estão nesse dicionário.

Depois que o menino escreveu todas as letras e recortou todas as folhas em quadradinhos, foi a vez de dona Júlia ficar toda empolgada:

– Agora vai começar o jogo! Vou separar algumas letras e você terá que escrever o maior número de palavras apenas com elas.

Dona Júlia conhecia bem a letra “A” e algumas outras vogais. Por isso, não foi tão difícil o menino descobrir que, com as letras “M – A – R – O”, davam para escrever palavras como “Amor”, “Romã”, “Mar”, “Ora”, “Aro”, “Mão”, “Mor”...

Ainda muito empolgada, continuou:

– Vai montando as palavras com essas letrinhas aí. Vou dar 10 minutos para você montar as palavrinhas e escrevê-las no caderno. Depois, vou dar mais 5 minutos e ver se você supera seu recorde ao escrever ainda mais palavras.

– Mas como vamos saber se as palavras estão certas, mãe?

– Ora essa, menino, para isso é que existe dicionário. Você escreve as palavras e confere se elas estão certas, simples assim...

Um pensamentozinho muito feio começou a rondar a cabeça de Luís Fabiano.

Como dona Júlia não sabia ler “direito”, ela talvez não daria conta de que Fabiano, sem querer querendo, estivesse montando as palavras de um jeito errado, mas dizendo que estavam corretas ao “conferir de mentirinha” no dicionário.

Bem, o menino não tinha o costume de mentir para a mãe, mas, como ele sempre dizia, jogo é jogo.

– Pronto, mãe, já conferi todas as palavras que escrevi com as letrinhas que a senhora separou e todas estão certas! Consegui escrever 7 palavras! Eu sou muito bom mesmo para jogar!

– Calma, menino, não conte com a vitória antes de terminar o jogo. Agora, vou ver se você consegue escrever mais do que 7 palavras em apenas 5 minutos.

– Ah, a senhora duvida da minha capacidade de jogar? Sou o melhor jogador que existe aqui nessas redondezas. Pode separar aí as letrinhas de novo, a senhora vai ver só como vou bater meu próprio recorde!

E assim foi! O menino se esforçou tanto que conseguiu mesmo montar 8 palavras com as letras que dona Júlia tinha separado para ele.

Claro que ela deixou passar um pouco os 5 minutinhos, mas não falou nada para o menino, pois o importante mesmo era aprender a escrever as palavras de forma correta.

Quando o menino estava lá todo empolgado, se exibindo por ter conseguido vencer a própria meta, dona Júlia o surpreende:

– Legal, filho, mas só vamos saber o resultado do jogo amanhã, quando eu perguntar para a sua professora se todas as palavras estão corretas.

O menino levou o maior susto! Como assim? Imagine só a vergonha que ele passaria se tivesse, sem querer querendo, enganado a mãe dele ao conferir de mentirinha as palavras no dicionário.

Ainda bem que, mentir, não era mesmo o costume do filho da dona Júlia.

E você? Aceita o desafio de bater a meta de Fabinho?

Erika de Souza Bueno: Coordenadora Pedagógica do Planeta Educação. Professora e consultora de Língua Portuguesa pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, educação e família. Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Fonte da Imagem: Corbis.

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