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Era Uma Vez

O Dever de Casa do Pontinho de Interrogação

Menino com semblante de dúvida, tendo as mãos no rosto

Num lugar nada distante, morava um Pontinho de Interrogação muito confuso e inquieto.

Dia terminava, dia começava, e o Pontinho estava lá com aquela carinha de quem não está entendendo nada sobre a vida, sobre as coisas, sobre si mesmo.

Um dia, não aguentando mais as muitas perguntas que rondavam a sua cabecinha dia e noite, logo que pulou da cama pela manhã, perguntou:

– Mãe, por que eu existo?

– Ora, meu filho, você existe porque as pessoas precisam perguntar, elas não podem simplesmente aceitar as coisas de qualquer jeito, entendeu?

Dona Interrogação, mãe do curioso Pontinho, era uma mulher bondosa e calma, mas havia dias que nem ela e nem o senhor Interrogação davam conta de responder tudo o que o menino perguntava:

– Do que é que vocês estão falando? – perguntou o pai do menino.

– A gente estava falando sobre mim, pai, por que é que eu existo afinal?

– Sua mãe não explicou para você?

– Expliquei sim, você está duvidando de mim, é isso?

Calma, calma, pessoal, não precisamos brigar. Apesar de paciente, dona Interrogação era muito justa e não aceitava que ninguém duvidasse dela. Que estranho isso para um ponto de interrogação, não acha?

– Mas pai, mãe, se eu existo porque as pessoas precisam se questionar, o que vai acontecer comigo quando elas já tiverem todas as respostas?

O jovem Pontinho de Interrogação estava morrendo de medo de desaparecer... Coitadinho, ele era ainda muito inseguro, achava que se o mundo deixasse de se questionar, ele não teria mais razão de existir... Nossa, que catástrofe seria isso! 

– Meu filho, isso não vai acontecer assim tão facilmente, as pessoas sempre terão dúvidas, sempre vão ter que usar a gente em vários momentos – dona Interrogação tentava acalmar o pobrezinho.

Não adiantou, a cada dia que passava, mais o Pontinho de Interrogação se perguntava, se perguntava e se perguntava.

Havia horas que o menino deixava o senhor Interrogação em grandes apuros:

– Pai, se eu não fosse eu, o que eu seria?

– Bem, meu filho, eu não sei bem ao certo, eu, eu...

Coitado do senhor Interrogação, ficou tão nervoso em meio a tantas perguntas que acabou tossindo e tendo que deixar para a mãe do menino responder... Será que ele fez isso de propósito?

– Ai, meu filho, se você não fosse quem é, seria Exclamação, Dois-Pontos, Travessão, Vírgula, Aspas, Ponto-Final...

Dona Interrogação queria dar um fim naquela conversa, mas não adiantou nada. Agora, o curioso Pontinho queria saber a razão que cada uma dessas palavras tinha para existir.

– Querido – dona Interrogação não poderia perder a paciência com o filho –, a Exclamação existe porque as pessoas se exaltam, se assustam, falam alto, ficam muito alegres. Como você acha que seria a vida sem exclamação?

– Bem, eu, na verdade, não tinha pensado nisso ainda...

A crise de identidade do Pontinho de Interrogação aumentou ainda mais, pois se sentiu sem jeito ao se dar conta que nem mesmo ele tinha pensado na existência de tantas pontuações.

Mas o menino não era fácil de ser vencido e, sem dó e nem piedade, encheu dona Interrogação de uma pergunta atrás da outra:

– Mas, mãe, e os Dois-Pontos, para que eles servem nessa vida?

– Ora essa, menino, eles servem para ser usados antes das falas das pessoas, antes de uma enumeração, dando uma pausa antes de continuar uma lista imensa de coisas.

– Ah é? Então, por que é que a gente tem necessidade do Ponto-Final se a gente já tem Dois-Pontos?

O menino não gostava de ser vencido assim tão facilmente, queria porque queria sempre sair em vantagem. Mas dona Interrogação:

– Menino, deixa disso, cada Ponto tem uma utilidade, o que seria das pessoas se não existisse o Ponto-Final para concluir o que estão falando, ora bolas?

Enquanto isso, o senhor Interrogação nem piscava. Ficava lá para ver quem iria sair ganhando dessa, se seria o menino com toda a sua curiosidade ou se seria dona Interrogação que não deixava barato:

– E o Travessão? E as Aspas? Para que eles existem, meu Deus do céu?

– Pontinho de Interrogação da Silva Faria, vê se entenda de uma vez por todas, o Travessão é usado para demonstrar que alguém está falando e pode até substituir as Vírgulas e os Parênteses, mas as donas Aspas dão destaque nas palavras ou indicam a escrita completa de várias formas de nomes, entendeu, senhor curioso de plantão?

Não sei não, mas acho que dona Interrogação estava ficando nervosa. Dá um medo na gente quando a nossa mãe nos chama pelo nome completo, não dá?

– Mais ou menos, mãe, é que a senhora falou outra palavra que eu não conhecia... Que vida é essa! O que são Parênteses? É um tio, uma tia ou um avô?

– Não é nada disso, Pontinho, e eu não disse parentes, e sim Parênteses!

Dona Interrogação queria fugir das perguntas do menino, mas ficou com dó do menino e resolveu responder bem bonitinho para ver se ele, enfim, entenderia:

– Filho, os parênteses servem para isolar termos numa frase e explicar o significado de siglas.

Dona Interrogação não poderia ficar brava com as perguntas do Pontinho, pois, afinal, não é exatamente para perguntar que eles existem?

– Mãe, a senhora está ficando cansada, não acha? A senhora se esqueceu de explicar por que as Vírgulas existem.

Ai, meu Deus, o menino não deveria ter falado aquilo. Dona Interrogação começou a ficar vermelha, vermelha e vermelha, que até parecia que iria explodir.

Ela pensou que o menino estava a chamando de velha e, por mais que o senhor Interrogação achasse que não deveria, o Pontinho foi colocado de castigo até a segunda ordem:

– Mas, mulher, o menino não disse nada de tão grave assim...

Não adiantava, dona Interrogação estava irredutível e tinha a resposta na ponta da língua:

– Ora essa, homem, ele não fez a lição de casa que a professora mandou na semana passada, pois, se tivesse feito o que deveria, saberia muito bom o porquê das Vírgulas existirem.

É verdade, o Pontinho de Interrogação passava tanto tempo pensando em si, que não se deu conta que a professora já tinha passado uma lição sobre Vírgulas para ser lida em casa.

Não deu outra. Para aproveitar o tempo que ficaria de castigo, dona Interrogação mandou que o menino lesse cada vírgula do conto “As Vírgulas em... Preciso Respirar”.

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Erika de Souza Bueno: Coordenadora Pedagógica do Planeta Educação. Professora e consultora de Língua Portuguesa pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, educação e família. Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Fonte da Imagem: Corbis.

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