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Era Uma Vez

As Vírgulas em “Preciso Respirar!”

Dois meninos brincando de esconde-esconde, estando um mais à frente e outro atrás de uma àrvore

– 47, 48, 49, 50! Eu vou achar vocês! – disse Ana Beatriz ao terminar a contagem, brincando de esconde-esconde naquela quente manhã de segunda-feira.

A menina, sempre muito ansiosa, contava tão rápido, mas tão rápido que nem dava tempo de seus colegas se esconderem direito.

– Achei você, Hugo, nem adianta correr!

Pois é, não adiantou nada, o Hugo, seu coleguinha de classe, saiu em disparada para bater o pique, que mal via quem estava na sua frente.

– Ai, ai, ai, ufa, alcancei você – Ana Beatriz se sentia triunfante.

Naquele dia, a brincadeira estava tão gostosa que as crianças nem se deram conta que o sinal do intervalo tinha tocado e continuaram brincando despreocupadamente. 

Não deu outra, a inspetora as viu correndo de um lado para outro, mas quando estava se aproximando para mandá-las à diretoria, Ana Beatriz, Hugo e mais quatro crianças saíram, mais uma vez, correndo em direção à sala de aula.

– Licença, professor – Hugo e seus amiguinhos bateram na porta, entraram e se sentaram ofegantes cada um à sua carteira.

– O que é que vocês estavam fazendo? Por que chegaram atrasados?

O professor Jorge tinha muitas razões para estar nervoso, até mesmo pelo fato de aquela não ser a primeira vez que seus alunos chegavam atrasados à sala de aula depois do recreio.

– A gente estava no banheiro – Ana Beatriz já tinha sido avisada que era muito feio mentir, mas achou que era a melhor alternativa para aquele momento.

– Ah, é mesmo? – O experiente professor já estava acostumado com essas coisas, sabia muito bem que a desculpa do banheiro era a mais usada pelas crianças.

– É nada, professor, a gente estava mesmo era brincando de esconde-esconde... – João Pedro era muito sincero e, depois de ter recebido tantas broncas pelas mentirinhas que contava à mãe, já tinha aprendido que mentir não era o melhor a se fazer.

– Ai, João Pedro, tinha que ser você mesmo... – Ana Beatriz não gostou nem um pouquinho da sensação de ser desmascarada, mas foi muito bom para ela, pois aprendeu que a mentira, além de ter pernas curtas, nunca compensa.

– Bom, pessoal, já deu para perceber que mentir não é remédio para nenhuma situação, não é mesmo? – O professor Jorge sabia muito bem que a escola também tinha que contribuir com outras áreas da vida de cada criança.

– Estou arrependida de verdade, professor, desculpa, nunca mais vou fazer isso, prometo. – Ana Beatriz tinha mesmo aprendido a lição.

– Criançada, agora vamos à nossa lição de hoje: as Vírgulas!

Hugo, que mal tinha se recuperado do cansaço de sair correndo na hora do intervalo, arriscou:

– Ah, essa é fácil, professor, é só colocar vírgula quando a gente precisa respirar na hora da leitura.

– Quem mais acha isso? – perguntou o professor Jorge que viu algumas mãozinhas sendo levantadas timidamente.

Na verdade, ele fez a pergunta para a sala inteira porque não queria deixar Hugo “errar” sozinho, mesmo que errar faz parte, não acha? Então, continuou:

– Não é assim, pessoal, imagine se a gente fosse usar a vírgula apenas para respirar na hora de ler... Nossa, seria muito esquisito ler o que o Hugo e a Ana Beatriz escrevem, pois cada um tem um fôlego diferente do outro.

Ana Beatriz sempre foi muito ansiosa, vivia brincando de pega-pega, pulando corda, brincando de amarelinha.

Já Hugo, bom, Hugo era bem mais calmo, só gostava do futebol na televisão ou videogame, nunca aceitava os convites de seus colegas nem para um joguinho sequer.
Foi por isso que Ana Beatriz o alcançou tão facilmente na hora do esconde-esconde.

– Espera um pouco, se não é para a gente respirar, então por que existe a vírgula, professor? – João Pedro sempre foi muito questionador e gostava de desafios, aliás, gostava mesmo era de vencer os desafios.

– O que você acha, Ana Beatriz? – O professor Jorge tinha percebido que a menina estava com um bico tão grande, que resolveu mexer um pouco com ela numa tentativa de melhorar o clima em sala de aula.

– Ah, professor, acho que serve para separar palavras. – Ana Beatriz era muito esperta, se saía bem nas mais diversas situações, além e ser muito esforçada.
– Isso mesmo, Ana Beatriz, parabéns!

O professor Jorge ficou empolgado com a resposta da menina e com a participação de Hugo e João Pedro, mas precisava continuar:

– Hoje, para a gente começar, vamos ver como muda o significado do que estamos falando quando colocamos ou não esse sinalzinho nas nossas frases.

Foi o maior sucesso! As crianças ficaram encantadas com as possibilidades de mudanças que uma vírgula é capaz de causar na frase.

– R$ 2,50 pode se transformar em R$ 25 se a gente mudar a vírgula! – Natan, que até então estava quietinho lá no meio da sala e prestava atenção em tudo o que estava acontecendo, ficou muito feliz em saber que a sua mesada poderia render mais...

– Isso mesmo, Natan, parabéns, mas quais outros exemplos você pode citar?

O professor Jorge gostava muito desse aluno, que só falava quando tinha certeza, mas sabia que ele poderia exigir um pouco menos de si. Afinal, por que será que a gente tem tanto medo de errar?

Então, o professor o incentivou:

– Não precisa ter medo de errar, Natan, você é capaz de superar qualquer falha, está bem? Além disso, errar faz parte da vida e é errando que as pessoas acertam.

Ana Beatriz não podia perder a oportunidade e, ainda insegura sobre se tinha ou não conseguido o perdão do professor, disse:

– Igual a mim, não é, professor? – Eu errei ao mentir para o senhor, mas já aprendi que é muito feio.

Com um sorriso despontando no cantinho da boca, o professor Jorge finalizou:

– Claro, querida, só que antes de conseguir o perdão dos outros, a gente precisa conseguir perdoar a nós mesmos, certo?

João Pedro olhou de um lado e de outro e disse:

– Bia – ele a chamava assim às vezes –, foi mal eu ter desmascarado você, mas se fizer isso de novo, aí eu vou contar para sua mãe!

O menino era organizado, pontual e sabia muito bem o que queria para si e para as pessoas que gostava, e mentir não estava em seus planos.

Bom, a aula seguiu até que o sinal tocou, finalizando aquela linda manhã.

As crianças foram embora rindo e ansiosas para continuar descobrindo o que mais uma simples vírgula podia mudar na vida das pessoas.

“Não, perca a próxima aula”, ou melhor, “não perca a próxima aula”.

Erika de Souza Bueno: Coordenadora Pedagógica do Planeta Educação. Professora e consultora de Língua Portuguesa pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa, educação e família. Editora do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Fonte da Imagem: Corbis.

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