logo      
Era Uma Vez

Pão Pede Ovo, Ovo Pede Pão

Menino de sardas sorrindo com touca e gola alta

Num lugarzinho distante, onde as cidades eram ainda vilarejos, de tão pequenas que eram, vivia um menino tão levado, mas tão levado, que levava todas as pessoas em suas traquinagens.

Ninguém conhecia seus pais e todas as pessoas adultas eram seus tios ou avós.

Ele as adotava com tanta naturalidade que as pessoas passavam mesmo a sentirem-se seus legítimos parentes.

E, em geral, faziam todas as suas vontades. 

Ele prestava pequenos favores para as pessoas, como: varrer um quintal, lavar um cachorro, levar um recado, entregar pequenas encomendas (correio não existia ainda por ali...), molhar um canteiro de verduras, tratar de algumas criações, tudo em troca de algumas moedas ou de um prato de comida.

E, por falar em comida, ele também carregava marmitas de comida para as pessoas que estavam trabalhando nas lavouras.

Esse era o trabalho que ele mais gostava porque, volta e meia, ele surrupiava uma marmita, abria e a comida de alguém tomava um destino diferente.     

Após cometer seu pequeno delito (pelo menos ele pensava assim...), voltava à casa da pessoa lesada e inventava uma desculpa tão impressionante que, às vezes, a pessoa lhe dava até mesmo mais um prato de comida, fora a marmita que era refeita porque nenhuma pessoa merece ficar na lavoura, trabalhando pesado, sem comer, muito menos quem lhe carrega a marmita.

Seu nome era João, somente João, porque sobrenome ninguém jamais o soubera, muito menos ele.

Chegava a rir de sua situação de João Sem Nome, dizia não sentir falta de nome, e muito menos de ninguém que fosse.

Dizia que tudo de que precisava era de um cantinho para dormir e uma comida que lhe “esquentasse” a barriga nos dias frios ou quentes! 

E assim ia vivendo João sem nome, levando a vida de maneira tão alegre que é até difícil de se imaginar alguém tão feliz com tão poucos motivos para ter felicidade!

Gostar de João Sem Nome naquele lugar era tão comum como ver-se o dia clarear pela manhã, ou vê-lo escurecer à noitinha.

Tudo era tão normal que as pessoas não podiam sequer supor que um dia poderia aparecer por ali alguém que não gostasse de João Sem Nome. 

E um dia apareceu! Veio na pessoa de uma mulher viúva, já no adiantado da idade, amarga e tão seca em sua amargura que as pessoas diziam que na sua casa não tinha nem espelho porque era capaz de ela se indispor com a própria imagem.

Seu nome era Graça, mas não tinha graça nenhuma!

Ficara viúva num lugar distante dali e, para esquecer o marido falecido, achou que a solução seria viver num lugar bem longe daquele em que outrora vivera casada.

Mas não deu certo. A viúva Graça se atarracara tanto em sua amargura que a amargura se sentira tão querida que veio morar com a viúva naquele lugar em que as pessoas eram tão felizes.

Assim que chegou ao vilarejo, as pessoas tentaram fazer amizade com ela, mas todas as iniciativas foram em vão.

 Graça não gostava de fazer amigos, não queria ter amigos e só se dava bem mesmo com a sua amargura de viúva.

A amargura então se instalou na casa de Graça e os vizinhos desistiram de tentar fazer a viúva viver feliz como todo mundo ali.

O que mais aborrecia as pessoas era o desprezo com que Graça tratava João, não lhe propondo nenhum trabalhinho que pudesse lhe render umas moedas, algum alimento, ou dar-lhe um sorriso sequer.

João Sem Nome não se conformava com o jeito da viúva e apostou com os amigos que haveria de conquistar a amizade dela, nem que fosse através de alguma traquinagem. 

Um dia, como acontece em todas as histórias, um fato novo veio movimentar essa história, porque fato novo, para quem não sabe, é como gasolina para o carro, o combustível que faz as histórias andarem.

Aconteceu de aparecer por aquelas bandas um circo muito pobre, mas cheio de pessoas alegres e engraçadas, bem parecidas com as pessoas que viviam naquele lugar. 

João logo fez amizade com os artistas do circo e entre eles conheceu um ventríloquo, que, para o menino, era um homem mágico que sabia transferir a sua voz para um objeto que estivesse longe dele.

João ficou impressionadíssimo e pediu ao ventríloquo que lhe ensinasse aquela mágica, no que foi atendido pelo artista.

O circo foi embora e João agora era o ventríloquo do lugar, divertindo as pessoas com a “mágica” que aprendera com o homem do circo, que inclusive o presenteara com um boneco, personagem indispensável nas apresentações de ventriloquismo.  

Quando cansou de brincar com sua nova habilidade, João Sem Nome voltou a pensar num jeito de conquistar a amizade da viúva Graça sem graça.

Depois de muito pensar e de muito traquinar com suas ideias, João imaginou um plano que garantiu aos amigos que seria perfeito para conquistar a amizade dela.

Agora, João era ventríloquo, e viu nessa habilidade a chance que precisava para levar adiante seu plano.

Após fazer uma boa aposta com seus amigos, começou a colocar o plano em prática.

Numa bonita manhã de primavera, João Sem Nome espreitava a viúva Graça sem graça, quando reparou que ela entrou rapidamente em sua casa, esquecendo a porta aberta.

João não perdeu tempo e, pegando seu boneco ventríloquo, adentrou pela casa da viúva sem lhe dar tempo de fechar a porta e impedir sua entrada.

Trazia um pão velho dentro do bolso da calça e antes que a viúva esboçasse qualquer reação, começou a falar com ela, fazendo com que a voz saísse pela boca de seu boneco ventríloquo:

– Olá, querida Graça, que linda manhã, não acha?

– Moleque safado! Como ousa invadir assim a minha casa?

Graça dirigia-se a João, tentando num esforço enorme ignorar a presença do boneco.

João também tentava ignorar a viúva e continuava a falar através de seu boneco:

– Ora, ora! Não brigue com o meu amigo! A ideia de entrar aqui foi minha, só minha, eu, um legítimo boneco falante, por sinal chamado Falastrão!

Graça, a viúva sem graça, que ainda não tinha assistido a uma sessão de ventriloquismo começou a se impressionar com a atuação do boneco. Como podia um boneco falar?

O boneco não parava de falar um minuto, e Graça não sabia mais o que pensar.

João percebeu que a viúva entrara apressada para a casa porque estava fritando ovos, possivelmente para o seu café da manhã, já que sobre a mesa havia uma cestinha com alguns pães dentro.

Foi o momento de o pão entrar em ação.

Num momento de descuido da viúva, quando esta voltou sua atenção para a frigideira no fogo, João fez o boneco segurar um pedaço do pão que trouxera e mostrando-o para ela, disse em tom de súplica:

– Oh! Querida Graça! Como meu pão gostaria de fazer amizade com um pedacinho desse ovo tão saboroso que vejo na sua frigideira!

Nesse momento, Graça não resistiu ao boneco e começou a rir:

– Não é possível! Até um pedaço de pão você tem?

Enquanto a viúva voltou-se para a frigideira para cortar um pedaço de ovo, João comeu rapidamente o pedaço de pão e quando Graça veio com o pedaço de ovo, já não havia mais pão:

– Onde está o seu pão?

– Comi, querida amiga, a fome não me deixou esperar!

Graça entregou o ovo para o boneco, dando a entender que ele deveria comer o ovo sem o pão e este, desconsolado, acrescentou:

– Oh! Meu Deus, como esse ovo está triste por ter se desencontrado do meu pedacinho de pão!

Graça, finalmente, começou a achar graça na brincadeira e trouxe logo outro pedaço de pão para o boneco.

Mas o pedaço de ovo já tinha sido comido!

– Oh! Meu Deus, agora tem um pedacinho de pão clamando pelo seu pedacinho de ovo!

E assim, toda vez que a viúva se virava, João comia ora o pão, ora o ovo e prosseguia com a brincadeira enquanto ia enchendo sua barriga de pão e ovo.

Graça riu muito e ficou um longo tempo brincando com João.

Depois desse dia, tornaram-se amigos inseparáveis e João, além de conquistar a amizade de Graça, fazendo-a expulsar a amargura na qual se atarracara por muitos anos, ainda ganhou muitas moedas da aposta que fizera com os amigos do vilarejo.

Agora Graça não é mais sem graça e João não é mais sem nome porque foi adotado pela viúva que passou a cuidar dele como se fosse seu próprio filho, dando seu sobrenome para completar o dele que durante muito tempo tinha sido João Sem Nome.

*Esta história eu a ouvi quando ainda era pequena, muito pequena, num tempo em que a televisão não havia ainda capturado as crianças, fazendo de muitas delas, verdadeiras Graças sem graça...

Amawii.

Maria Tereza da Silva Sardinha do Prado é Professora de Educação Básica I, aposentada desde 2007; Habilitada em Pedagogia pela PUC-SP em Educação Infantil e Fundamental Ciclo l; Credenciada no curso “Alfabetização Teoria e Prática à Distância” pela CENP; Formada pelo MEC (PROFA – Programa de Formação de Professores Alfabetizadores) sob a consultoria de Regina Câmara e Telma Weiss; Formada pela CENP no curso “Letra e Vida” (consultoria de Kátia Lomba Bräkling e Yara Prado); Fez curso de Formação de Coordenadores de 1ªs a 4ªs séries, ministrado pela FDE e curso de Parâmetros Curriculares Nacionais em Matemática, ministrado pela Secretaria Municipal de Arujá; Trabalhou também no Projeto Pedagógico para orientar toda a Rede de Ensino Municipal de Igaratá, destinado a Professores e Coordenadores da Rede.

Fonte da Imagem: Corbis.

Planneta - Todos os direitos reservados