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Era Uma Vez

Futebol e Poesia - Lições de Tolerância

Menino Sentando Numa Bola

Dois garotos apareceram no clube para tentar o sonho de se tornarem jogadores de futebol.

Não foi no mesmo time. Nem aconteceu no mesmo dia. Na verdade, entre eles e suas histórias se passaram mais de 30 anos.

Eles não eram os únicos. Muitos outros também alimentaram esse sonho.

Pensavam na bola correndo pelos quatro cantos do gramado, leve e faceira, a provocar-lhes enorme paixão.

Imaginavam o gol, com o goleiro embaixo da trave, a tentar evitar a alegria maior desse espetáculo...

Que tremendo estraga-prazeres eles conseguiam ser tantas e tantas vezes.

Queriam o calor das multidões que lotavam os estádios aos domingos a espera dos dribles, passes, desarmes, defesas e chutões para tudo quanto é lado.

Tudo era festa no futebol, assim pensavam todos aqueles aspirantes a craques.

Alguns tinham toda a pinta de boleiros. Outros eram tão desengonçados que poderiam ser dispensados logo na entrada da “peneira”.

Uns vinham descalços ou com tênis remendados. Poucos tinham chuteiras...

Quando a bola rolava era um festival de pernas magricelas se atirando com incrível voracidade em direção a bola.

Pareciam homens famintos diante de um prato de comida que resplandecia perante eles.

O primeiro garoto de nossa história tinha estatura média, era robusto e tinhas pernas acentuadamente tortas.

Acharam até que ele era aleijado e que mal conseguia ficar em pé...

Só não foi dispensado porque tinham falado maravilhas dele.

No clube que o estavam recebendo acharam que era tudo propaganda de alguns amigos, e o pior de tudo, provavelmente enganosa...

No dia em que chegou, resolveram que o tal moço das pernas tortas, chamado por alguns de engodo...

Tinha que ser humilhado para que nunca mais ousasse acreditar que poderia ser um dos ídolos do futebol.

Colocaram o pobre coitado num treino dos profissionais...

E o pior, para jogar contra um jogador da seleção, um tal de sabe-tudo (ou algo assim).

Pensaram que depois daquilo nunca mais veriam as tais pernas tortas...

Quando o treino acabou foram todos resgatar... O pobre sabe-tudo da seleção...

Que tomara um grande vareio e que tinha sido levado a bailar pelo tal das pernas tortas, um certo Mané, que o mundo jamais iria esquecer...

O outro aspirante a estrela era baixinho e gordinho.

Como poderia correr, pensavam os primeiros que o viram. Não teria velocidade e tampouco habilidade com suas pernas curtas e corpo robusto para um futebolista.

Fez e desfez nas peneiras. Encantou os observadores e se tornou promessa portenha de um novo reinado.

Virou o menino de ouro em sua terra. Conduziu seus times e sua bandeira a conquistas épicas no futebol.

Desafiaram os princípios  e a lógica com suas anatomias diferenciadas e se tornaram sócios do panteão reservado a alguns poucos imortais do esporte.

Fizeram o mundo rir e se deliciar com sua arte e habilidade...

Mostraram ao mundo que suas características, que alguns afirmavam ser defeitos...

Eram apenas suas assinaturas, que lhes conferiram total e plena originalidade. Fizeram com suas pernas, o futebol virar poesia...

João Luís de Almeida Machado é Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte da Imagem: Corbis.

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