logo      
Era Uma Vez

O Livro Mágico de Joãozinho

 Menino-com-a-Lingua-um-pouco-para-Fora

Tudo aconteceu no mês de outubro, quando Joãozinho recebeu um livro de presente. Era um livro encantador.

Uma aventura incrível. O livro era tão, mas tão bom, que Joãozinho não conseguiu sair dele.

Conseguiu fechar o livro, sim, mas permaneceu preso nas páginas.

Nos dias seguintes sentiu-se estranho. Enquanto uma parte dele ia para a escola, brincava com os amigos, jogava futebol, a outra parte... estava no livro.

Só pensava nas aventuras, só queria conhecer a terra das bruxas das vassouras vermelhas, enfim, era muito estranho mesmo.

Para entender o segredo, Joãozinho decidiu que era o momento de uma releitura.

Na tarde de sábado abriu o livro e novamente ficou encantado. Perdeu-se no caminho das bruxas, e de repente, escutou o chamado de sua mãe.

Tentou ir, mas não conseguiu sair do livro.

Hahaha! A bruxa de cabelo vermelho, montada numa vassoura de palha vermelha, riu.

Agora você é meu! Hahaha! Joãozinho escutou a porta abrir.

Mamãe, mamãe – gritou. Sua mãe olhou, só viu o livro sobre a cama, fechou a porta e continuou chamando o filho.

A bruxa Ernestina perseguiu Joãozinho por tantos lugares! O menino se escondeu em um guarda-chuva, e a bruxa bateu apontou com sua varinha.

Plimmm plummm, o guarda-chuva quebrou.

O menino correu e se escondeu num armário, mas a bruxa encostou sua varinha e, ploct, ploct, as portas do armário se abriram.

O menino ficou prisioneiro nesse mundo paralelo.

Ele só queria voltar para casa, mas a bruxa não o deixava. Pobre do menino!

Tinha que varrer o chão, lavar as xícaras de chá, os pratos e os cinzeiros, porque a bruxa fumava até três cigarros ao mesmo tempo.

Colocava um cigarro no canto direito da boca, outro no lado esquerdo e outro ainda no centro da boca.

Jogava toda a cinza no chão! Joãozinho era obrigado a limpar o tapete da sala.

Nesse lugar não havia onde brincar, não! Nem havia com quem brincar.

A bruxa morava sozinha. Bom, morava com um corvo, mas esse bicho não era muito simpático.

Esse corvo não gosta de mim – pensava Joãozinho.

Até que um dia a bruxa solicitou, iriam até a cidade para comprar mantimentos.

Joãozinho ficou no assento de trás do carro pensando, pensando.

Quando chegaram ao mercado, enquanto a bruxa comprava repolhos, Joãozinho fugiu e foi até a prateleira de livros que estava bem ao lado das estantes de cadernos.

Abriu um livro e fugiu para uma história muito simpática de uma vovó que molhava as plantas, então um vento forte sacudiu o livro...

Nesse vento Joãozinho viu a bruxa. Ela levantou a sua varinha, falou algumas palavras mágicas e o menino voltou para a floresta.

Ele tinha que trabalhar no casarão velho e úmido e, como castigo, era fechado no sótão toda noite.

Ele escutava a chave. A bruxa girava duas vezes na fechadura.

Joãozinho tinha medo e não conseguia nem dormir direito.

Quando ele olhava para fora da pequena janela só via o bosque.

Uma vez viu o corvo espiando-o. Joãozinho começou a chorar.

O corvo se aproximou da janela e bateu com as asas. Joãozinho, esfregando os olhos, foi até a janela e abriu.

– Tadinho! Você deveria estar brincando, não trabalhando... Não tem idade para trabalhar ainda – disse o Corvo.

Joãozinho sorriu, por fim podia falar com alguém, ainda que fosse um bicho.

– Eu brincava muito quando vivia na minha casa, lá num bairro da cidade de São Paulo.

– A bruxa foi até lá e te sequestrou?

– Sequestrar?

– Sim, te trouxe à força, você não queria e ela te obrigou...

– Não, não. Na realidade foi um livro que me sequestrou.

– Um livro?

Joãozinho contou o acontecido para o corvo e o bicho, muito esperto, disse que havia uma solução e murmurou algo no ouvido do garoto.

Uma semana depois, quando novamente foram ao único mercado do povoado onde vendiam de tudo, de lápis a tapetes, de repolhos a lâmpadas, muitos e muitos produtos, Joãozinho esperou a oportunidade em que a bruxa estava escolhendo cuidadosamente os repolhos, porque gostava muito de repolhos, e queria-os bem verdes, com folhas grandes, e então ele correu até a estante onde dizia “Papelaria”, pegou um lápis, abriu um caderno e escreveu: “Quero voltar para minha casa”.

Quando abriu os olhos, estava na sua casa.

– Oba! – gritou.

Escutou a sua mãe chamar: Joãozinho, Joãozinho, onde você esteve a tarde toda?

Joãozinho entendeu que a dimensão dos livros é diferente do tempo humano.

Uma hora para uma criança é tempo suficiente para tomar banho e tomar o café da manhã antes de ir à escola.

Já no mundo mágico dos contos, uma hora de leitura pode levar uma criança para o mundo das bruxas, das fadas, dos bichos e outros.

– Desça para tomar um lanche e depois tem que fazer as tarefas. Traga o seu caderno.

Joãozinho pegou o seu caderno novo, que sua mãe havia comprado na papelaria da esquina para as aulas de português na semana anterior, e sorriu.

Sim, o caderno estava em branco. Só dependia do menino escrever coisas belas ou ruins, dependia domenino fazer bons trabalhos.

Lembrou-se da vovó, ela sempre dizia que um caderno é como a vida, você tem chances de fazer coisas boas.

Joãozinho levantou-se, foi até a porta, passou pelo corredor e chegou à sala.

Lá abriu o caderno e viu uma frase que a professora havia escrito no quadro e ele mesmo havia copiado no caderno: Redação “Quero voltar para minha casa".

Isabel Furini é escritora e palestrante, autora da coleção "Corujinha e os filósofos", da editora Bolsa Nacional do Livro. Ministra oficinas e palestras para futuros escritores. Contato (41) 8813-9276 -e-mail:Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Fonte da Imagem: Corbis.

Planneta - Todos os direitos reservados