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Era Uma Vez

As Histórias da Avó Ana

Foto de Avó e Neta Loiras Sorrindo

As páginas do livro se abriram.

Várias histórias clássicas estavam ali, diante das crianças, reunidas ao redor da avó, numa tradicional casa de fazenda.

Guloseimas deliciosas feitas com carinho estavam ao alcance de todos.

Biscoitos, geléias de frutas naturais, pãezinhos recheados, manteiga da fazenda e sucos de goiaba e jabuticaba. Era só se servir.

E contadora de histórias como a Vó Ana não existia.

Leitora ávida desde criança, nem o Vô João, com todo o seu charme e simpatia, era páreo para ela.

Por isso, todos os netos, dos mais velhos aos mais novos se reuniam quando a Vó se preparava para contar as histórias dos livros ou da própria imaginação.

Manoel, Lucas, Gabriel e João Vítor formavam a turma dos meninos.

Thaís, Ana Luíza e Júlia compunham a trupe das meninas.

E a avó começava lá pelas bandas das Arábias e suas Mil e Uma Noites.

Eram as preferidas do Lucas.

Imediatamente o garoto já se imaginava a entrar escondido na caverna, no lugar do Aladim, encontrando a lâmpada mágica e a esfregando para encontrar o gênio.

Depois dos tapetes voadores e dos príncipes do mundo árabe, Vó Ana voltava para o Brasil.

Fazia as crianças lembrarem de Monteiro Lobato.

 Resgatava as reinações de Narizinho, Pedrinho, Visconde de Sabugosa e também da Emília.

Os favoritos da Thaís, a neta mais velha.
Ela mesmo uma autêntica boneca sapeca, criativa, cheia de energia e teimosia.

Arteira como a personagem de Lobato, Thaís queria redesenhar o mundo e as coisas, reinventar a natureza.

Em outras ocasiões Vó Ana gostava de contar as histórias de Júlio Verne, como aquela em que um professor maluco resolve dar a volta ao mundo em um balão.

E dessas quem gostava mais era o Manoel.

Mais velho que os outros, ele queria colocar uma mochila nas costas, subir no balão do Júlio Verne e conhecer a China, o Egito, a Grécia, a França...

O irmão dele, Gabriel, simpatizava mais com personagens espertos, matreiros, como Huck Finn, Tom Sawyer e Pedro Malasarte.

Era bem a cara dele mesmo, capaz de dar nó em pingo d'água e resolver qualquer problema que tivesse pela frente.

As histórias de princesas encantavam a menina Ana Luíza.

Aninha, como era mais conhecida pelos irmãos e primos, apreciava os contos que tinham fadas, bruxas, príncipes e as belas mocinhas que se tornavam princesas, como a Cinderela.

Julinha já gostava mais das audaciosas guerreiras, como a chinesinha Mulan, que resolviam a parada por conta própria.

Ela mesmo parecia saída de uma daquelas histórias.

Mesmo sendo a caçula do grupo não gostava de depender de ninguém e tampouco levava desaforo para casa.

Mas quem viajava nas histórias mesmo era o mais novo entre os meninos, o João Vítor.

Ele gostava de tudo o que a Vó Ana contava. Parecia não ter preferências. Mas no fundo gostava era de histórias épicas.

Adorava aquelas em que Ulisses ou Teseu enfrentavam a fúria dos Deuses do Olimpo e se defrontavam com seres mitológicos como Minotauros e Ciclopes.

Gostava de se imaginar na pele de heróis gregos em meio a batalhas, ninfas e mares bravios, com ondas gigantes e naufrágios.

Naquele dia, no entanto, Vó Ana trazia uma história nova, que nenhum deles conhecia.

E não era de Deuses mitológicos, príncipes e princesas, meninos matutos, bonecas de pano ou cientistas malucos...

Não se passava em castelos, impérios, países conhecidos ou mesmo em outros planetas.

A história que ela ia começar passava-se inteiramente na cabeça de uma criança...

E lá dentro, bem no fundo do cérebro, esta criança pensava em macacos, cobras, bichos-preguiça, antas, jaguatiricas, tucanos, águias, jacarés, onças, lhamas e garças que conversavam entre si.

Falavam sobre os seres humanos. Tinham medo deles...

Sabiam que eram mais fortes, maiores ou que tinham velocidades que nenhum dos homens poderia alcançar.

Também tinham certeza que num combate direto, sem as armas de fogo usadas por seus oponentes, ganhariam...

Se tudo isto era verdade, do que tinham medo os animais, perguntou Vó Ana.

A pequena Júlia disse que os animais tinham medo das espingardas, revólveres e explosivos.

O mais velho de todos, Manoel, pensou alto e falou que os animais tinham medo da inteligência dos homens, que os fazia ter mais instrumentos para os combates entre eles.

Gabriel não tinha opinião formada.

Lucas também preferiu não se manifestar.

Ana Luíza ria da ideia dos animais falando sem parar, numa reunião e tendo os seres humanos como tema...

Thaís adorou a ideia dos animais que falavam e ficou pensando se não seria legal também que eles tivessem casas, salas, meios de transporte, televisão, computadores...

Seu irmão, João Vítor, ficou muito preocupado e rapidamente disse que, em sua opinião, os animais tinham medo era da destruição do ambiente em que viviam...

Vó Ana imediatamente disse que as respostas ouvidas eram muito boas.

Que para a criança que imaginava essa história tanto as armas de fogo quanto à inteligência humana causavam medo nos animais...
 
Mas que nenhuma outra preocupação era tão grande quanto ver a mata desaparecer, o fogo consumir as árvores, a floresta dar lugar as cidades, os rios ficarem poluídos ou sem água, a temperatura subir sem parar, o ar tornando-se irrespirável...

Imediatamente, Ana e Thaís se deram conta de como nos arredores da fazenda de Vó Ana e Vô João tinham surgido estradas, prédios, casas, indústrias...

Julinha lembrou-se que antes via capivaras, tatus, pica-paus, gambás e até lagartos na fazenda...

Lucas lembrou todos do rio que cortava a fazenda e que estava ficando cada vez mais seco...

Gabriel falou sobre as frutas variadas que eram encontradas nas outras propriedades da região (amoras, laranjas, mangas, caquis...).

E, depois, perguntou Manoel a sua avó, como terminou a história na cabeça da criança?

A história continua a partir daqui com cada um de vocês, meninos e meninas... Disse a sábia avó.

São vocês que irão escrever o futuro. A criança da história é baseada em cada um de vocês... Deixando todos pensativos...

O tempo passou. Eles cresceram. Mas a história não foi esquecida nunca e cada um deles resolveu terminar de escrever, da melhor forma que podiam, aquelas linhas criadas pela imaginação da avó.

Manoel tornou-se engenheiro ambiental.

Ajudava o país a replantar suas florestas, fiscalizava empresas poluidoras, orientava projetos de preservação de espécies.

Júlia, por sua vez, resolveu estudar os animais e lutar por sua sobrevivência.

Trabalhava no Zoológico e ainda batalhava em organizações protetoras dos animais.

Lucas foi à luta e tornou-se cientista.

Buscava fórmulas e desenvolvia projetos para despoluir rios e cuidar do ar que respiramos.

Seu primo Gabriel resolveu tornar-se arquiteto especializado em urbanização.

Queria construir cidades que usassem energias limpas, como a solar ou a eólica.

Seu sonho era que todas as casas fossem ecologicamente corretas...

Aninha tornou-se jornalista e fazia matérias sobre meio ambiente.

Denunciava os abusos e procurava pressionar as autoridades pela aprovação de leis e ações em favor do meio ambiente.

João Vítor resolveu batalhar pelos oceanos e animais marinhos.

Estudou biologia marinha e cinema e começou um belo e reconhecido trabalho de produção de filmes e documentários em que falava sobre a preservação dos mares, das praias, dos peixes...

Thaís, a artista do grupo, resolveu usar a arte para defender a natureza.

Pintou belos quadros sobre a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica.

Escreveu livros e realizou pesquisas sobre as espécies em extinção.

E a Vó Ana? Orgulhosa de todos eles, continuou a fazer suas deliciosas guloseimas, começou a contar histórias para seus bisnetos e, para completar, viu a vida renascer pelos quatro cantos do país e do mundo...

João Luís de Almeida Machado é Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Fonte da Imagem: Corbis.

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